Acho que eu tenho sido confundida
e esquecida
Mas acho, acima de tudo
que continuo muito ferida

e por isso não posso ser

não estou preparada para você
nem para ela
Nem teu punho me apunhalando no final
aqui é um dia de cada vez
e nem com isso a vida tem sido possível

Não.

Aqui tudo é rascunho de verso do caderno que deixei em casa
e eu sonhei de novo

pernas entrelaçadas e meio amor meio sexo meio corpo lua noite passado

estou sendo lembrada, também
e estão tendo certeza de que sou eu
Ledo engano.

Estou longe
inalcançável e sozinha.

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lullaby

 

e então eu me sentei numa poltrona do ônibus que me levaria para longe dele
para sempre
me sentei e imóvel sabia que corriam lágrimas
sem mais
somente quente e carregando tudo que era nosso
eu terminei de novo o que ele não teve coragem
vejam só
ele nem ia me encontrar dessa vez
ele voltou e tentou partir meu coração de novo
Por que outra vez não havia ninguém para me proteger disso?
mais uma vez ele veio e se foi tentando levar ainda mais pedaços do que já destruíra
como se não tivesse sido o bastante antes

eu me perguntava o porquê como a mesma garotinha perguntava por que o próprio pai havia abandonado

o que eu fiz de errado, deus?
por que ele não gosta de mim, mamãe?

mas deus não existia daquela vez
nem dessa
e talvez, nem o amor –
a não ser esse que percorre cada uma das minhas artérias, veias ou capilares.

eles queriam o meu amor por que nunca tiveram, afinal?

De dentro do ônibus, ainda sem poder me mover,
inundada
não morri, nem
o matei

E o vi virando a esquina para nunca mais
porque dessa vez, nem um beijo eu desejei
nem um último abraço me fez querer ficar
dessa vez eu fui correnteza junto com as lágrimas e mágoas.

uma correnteza uma queda d’água uma enxurrada
que me trouxe de volta para o oceano
aqui,
sem ele
eu volto a praia sempre que posso
e junto mais um pedacinho de mim.

agora eu entendo porque meu pai me abandonou
ou porque meu primeiro namorado me agrediu
porque o segundo disse que não poderia segurar minhas mãos enquanto eu estava caindo
agora entendo porque todos os homens que passaram pela minha vida de alguma forma me machucaram

você já tentou fazer uma concha com a mão e beber a água?
eu sou a parte que escorre, que toca os lábios,
a pele,
mas vai.
às vezes você nem nota
às vezes sente falta e dificilmente vai se lembrar que jamais poderá ter de volta o que foi perdido por dentre os dedos.
Mas nunca, eu disse nunca, estarei do tamanho da concha que sua mão formou.

Eu nunca coube no amor de nenhum dos homens
não sei se um dia caberei e não sei se o quero
eu não coube e só quando ele me deixou pela segunda vez é que compreendi
eu só caibo em mim
mas ainda dói porque toda expansão dói
dói
mas estou livre.

Trevo de Quatro folhas que nunca encontrei

Hoje mais cedo escrevi um poema político
e enquanto escrevia chorava silenciosamente pelas mulheres
pelas meninas e pelos meninos mas principalmente pelas meninas
eu escrevia um poema político enquanto longe de mim
Mas não tão longe
Haviam trocas, de balas
Balas com gosto de sangue
descendo lentamente pela garganta dos meninos
Cano acima da vagina até o coração das mulheres
Mas nenhuma de fato apontada para o lugar certo
o meu cérebro
Que não para
nem por um segundo
nem que eu implore
Não para quando eles torcem por um gol
nem quando o dia esfria e os humores se configuram amenos
meu cérebro, máquina humana de destruição
me derruba cem vezes por dia e em nenhuma delas posso parar

existe tamanha revolta em mim
tamanha descrença e dor
que se uma pistola estivesse sobre a mesa
você não veria nada
somente uma massa nojenta
porque não há nada de bom cá dentro

antes ou depois de mim
nada de bom
comigo ou sem
nada mudou

A humanidade na roda da fortuna sem rodar.
Meu cérebro espalhado pela sala
Nenhum pesar ou descontentamento
Alívio, apenas.

O raio que me parta

Se eu ganhasse na loteria,
descobrisse uma herança
Sim, um tesouro perdido
Ou então, se ao menos,
alguma esperança de Deus Diabo algo mais ou qualquer coisa
mas nada
Como um monte de sucata, meus passos embarcam enchente abaixo
e paro
enroscada em qualquer lixo, qualquer lodo que ninguém mais consegue distinguir.

estou abrindo mão
Satisfeitos?

Lapso Temporal

Agora eu tenho o mar
Da minha janela a grande zona sul do Rio de Janeiro
Insinuando que o mundo é bonito

Mas o mundo, continua cruel
e eu, com meus vinte e um anos contados
torço para que o céu não esteja tão azul
Nem teu sorriso, tão sutil

A madrugada é fria e minha pele anseia por toques, olhares
sexo
Mas amor não, não mais
porque o amor me partiu e nunca voltou para me consertar

Hoje, já segunda-feira, novembro de novo
e tudo que quero é uma cerveja
porque no fim das contas,
eu não passo de mais do mesmo

Meu descompasso combina com o jazz do baixo Bota
com a ressaca que ultrapassa a mureta da Urca e derruba água salgada sobre o asfalto da elite carioca
Meu ritmo é turbulento
e insone às 04:05 AM
Desejo qualquer coisa que me tire de mim
Mas repito
– Que não seja amor.