Eu olho para você
e suas pupilam dilatam – não de amor, não –
que no amor não se apunhala, não

Olho para você
ciente de que nunca mais haverá um nós
cúmplice do afeto, me retiro de vez da tua vida.

Mas há dias em que volvo a cabeça e meus cabelos esvoaçam com o vento
e caem, fio a fio sobre meus ombros
e me lembro.

Não é necessário contar.

é só um fragmento, um acidente cognitivo rever a imagem  já apagada de ti em mim.

Não olho para você dessa vez
e em  vez alguma.

Agora caminho, com vento ainda aqui
e meus cabelos bagunçados e minha vida bagunçada
de amores de verdades que vivo
E minha retina profunda e dilatada sorri
No ápice de uma crise, ainda tenho amor
E amor, não  faz sofrer, não.

 

The Big Bang Theory

                                                                        Para P.
Eu poderia morrer atropela por um carro
em alta velocidade
numa turbulenta metrópole
Ou então
me afogar no litoral
– parcialmente embriagada.
A noite, às vezes, acordo com uma forte dor
E hoje vomitei um líquido verde escuro
Sim, eu poderia estar morta
se contarmos os
fatores
e ainda os fatos
Cruéis;
são os fatos
como a história de todos.

Nos damos conta de que não queremos comprar nada de vez em quando
E isso não é tédio.
Não querer, o que há de errado em não querer?

Não pude morrer
em nenhuma das vezes em que tentei me matar
e estando viva,
Atravessei canis e
estive no parapeito das janelas
(até que ponto valerá a pena, você se pergunta)

E então há os próximos passos
As refeições
o envenenamento diário
e claramente a percepção surge:
T E M P O.

Eu deveria estar morta
durante todos esses anos
esta foi a sentença
A imagem
desfalecida de mim mesma
Um escombro sob o chão de madeira maciça
Uma visão quase romantizada
O fetiche.

Nenhum verme caminhando
entre meus tecidos
Nenhum câncer
que não o mal-estar
E os batimentos cardíacos aumentam
mais e mais e mais 
e nem a súplica
ou o ar ousam aparecer.

Morte. 
A carta mais temida do tarot
é contudo a mais sedutora
e nela, algumas cartomantes veem saída.

Você poderia não acreditar, e eu deveria estar morta
mas este é um poema sobre amor
e é aí que começa:
– todos os carros podem te atropelar
e a loucura se instala.
Demasiadamente se ama e num ato fálico o estômago dói.

 

Não se brinca com corações
Ou se brinca
Mas se brinca com olhos nos olhos
Pupilas dilatando
Não se machuca um coração
Ou se machuca
Mas com palavras completas
Integridade.

A traição se dá no que ficou oculto e era essencial.

Não se perde tempo na vida
Ou se perde
Perder tempo é ganha-lo
Só perdendo se cresce – e muitas vezes nem assim.
Não se foge dos problemas com
calmantes
álcool
sexo
Ou se foge,
Mas toda fuga é desespero
E
O que é que resta depois disso?

Escapismo

O pranto vem me engasgando
E desce,
pelo canto do olho
tocando os lábios, fazendo uma
cócega que é quase acalanto.
Ninguém pode me pedir pra não chorar,
ninguém poderia me impedir de chorar.
Por mais que eu queira,
por mais que eu implore, silencie.
Não há maneiras de recuperar a inocência perdida.
Talvez se eu tentasse busca-la no centro velho de São Paulo,
Nos subúrbios do Rio,
na Yamaha preta e vermelha
nas escadas rolantes, nos parques.
Talvez se minhas tintas, lençóis e meias
dessem a meia volta e surgissem nas gavetas.
Talvez se as gavetas aqui não estivessem emperradas.
Se o quarto da velha casa onde cresci continuasse a ser meu
Talvez houvesse alguma forma de reencontrar
aqueles olhos, tão brilhantes, que encantavam
cativavam qualquer forasteiro.
Meu olhar, pra onde foi aquele meu olhar?
Ah
e se, agora, todas as decepções e alegrias se anulassem
Talvez, algum canto de mim, pudesse respirar aliviado.

04 de Março.

palavras que desesperadamente disparam uma bala no meu cérebro e me impedem de dormir

as pessoas são mais parecidas do que nós imaginamos
é engraçado isso, como todo mundo se sente de forma igual e ao mesmo tempo se repele.
Ou se repele, ou se gruda. É engraçado, engraçado não, irônico.
Irônico como nos apegamos tanto às coisas ruins, e como nos apegamos tanto as coisas boas
Irônico não, engraçado…
é interessante isso, como tentamos achar sentido, e quando dizemos que não queremos achar sentido, eis que ele surge. E sentimos, sentimos muito, sentimos tanto que chega a anestesiar, e aí paramos de sentir
Num ciclo, cíclico
Quem eu fui há dez anos atrás está impregnada em mim, e se desgarra de mim. Golpes, furos, mordidas, intransitividade
Intransitivos
Num trânsito ferrenho, todos os dias
e aí vem o sol, diz a música, e ali vamos nós, querendo a rolagem, a voltagem certa, o frenesi
O frenesi, ah, o frenesi
Engraçado como amamos à torto e a direito
e ainda nem sequer somos capazes de admitir
que ninguém é único, que somos todos, elétrons, de um núcleo
que puxa, puxa puxa
E nos impede da não existência
A sua vida, assim como a minha, a dela, a dele,
é corriqueira
e tira dos olhos umedecidos o brilho
e desvia dos olhares desconhecidos o riso
Ah, quantos amantes me amaram, e quantos não?
ah, quantos semblantes na esteira que vai e vem
a qual continuamos fissurados
Inconformados com: o peso, os batimentos cardíacos, a pressão inconstante
Somos mulheres, homens, o amor em pedaços
E quantas palavras, presas, que nos matam
Quantos foram os silêncios, que em prosa, nada confidenciaram?
Engraçada a vida, a chacota, a piada, a dor.
Engraçada e irônica, tal qual minha insensatez
em lhe escrever
E jurar que é pela última vez e lembrar que, ironicamente, de um jeito engraçado e sem graça, os juramentos são todos falsos.
E que volta e meia
voltamos
Eu volto



E por isso, me revolto